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Todas as segundas, quartas e sextas um artigo quentinho com opiniões aleatórias, questionamentos socráticos e visões confusas de mundo!

segunda-feira, 13 de julho de 2015

O espécime

A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pense nas infindáveis crueldades infringidas pelos habitantes de um canto desse pixel, nos quase imperceptíveis habitantes de um outro canto, o quão frequentemente seus mal-entendidos, o quanto sua ânsia por se matarem, e o quão fervorosamente eles se odeiam. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, em sua gloria e triunfo, eles pudessem se tornar os mestres momentâneos de uma fração de um ponto. Nossas atitudes, nossa imaginaria auto-importancia, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo, é desafiada por esse pálido ponto de luz.

Carl Sagan - Pálido Ponto Azul
 

- Ola, Clementina!
A voz, embora doce, parecia sair de um rádio datado de 1920. Imerso nas sombras, o estranho fantasma de olhos brilhantes se esforçava para não assustar a garota. Ela vacilava entre ficar ou subir as escadas do porão abandonado correndo. "A assombração é mesmo real", ela pensou surpresa. Sentia medo, mas não ameaça. Ela manteve-se calada.

- Que dia é hoje? Em que ano estamos?
Disse a criatura nas sombras como se despertasse. Clementina não conseguia vê-lo direito, mas teve certeza que o ser se movera. Os móveis ao redor dele tremeram e se arrastaram. Ela deu um passo para trás e subiu um degrau. O coração galopava a mil por hora. Nenhum dos meninos tivera coragem de entrar, mas ela aceitou o desafio para provar que garotas são melhores. Decidiu não fugir imediatamente.

- 30 de abril de 1950.
Ela disse. Percebeu, então, que talvez a oportunidade de fugir tenha lhe escapado da sola dos pés, que responder a criatura foi seu maior erro, e que agora seria tarde demais. Os olhos amarelos se ergueram no escuro, e o movimento do suposto fantasma foi acompanhado pelo ruido de metal, ferrugem, correntes e coisas caindo ao redor. Ela subiu mais um degrau, mas estava hipnotizada. Fascinada. Seria mesmo um fantasma? Será que fantasmas existem Como ele sabia o nome dela?

- Obrigado. Estive te esperando por muitos anos. Desde que os donos da fazenda abandonaram esse lugar. Foi por causa da morte do filho. Isso aconteceu há quase 150 anos. Para minha sorte, ninguém mais veio morar aqui... Acho que julgaram o local mal assombrado... Mas ele voltará a ser abrigado daqui há alguns meses
- Isso foi muito tempo antes de eu nascer. Como você podia estar me esperando?
- Não quero te assustar Clementina, mas de onde eu venho, você é muito conhecida.
Aquilo soou estranho. Ela não estava assustada. Tinha medo, claro, mas estava muito mais curiosa. Principalmente diante da comprovação de que fantasmas poderiam mesmo existir. Os olhos amarelos, duas bolas distantes uma da outra, não pareciam humanos, mas também não pareciam amedrontadores.

- Você não está me assustando. Eu vim até aqui! Você acha que está me assustando porque sou uma menina? Nenhum garoto teve coragem de entrar aqui, se quer saber.

- Oh, não! De onde eu venho, as mulheres são, ou eram, tão valorizadas quanto os homens. Mas isso está no passado. Ao menos para mim.
Clementina teve uma mãe forte e tias inteligentes . Os homens da família, no entanto, é que ganhavam dinheiro e que davam a palavra final, mesmo que fosse uma estupidez. Ele, o fantasma, devia ter vindo de muito longe.

- Eu ouço seu coração também. Consigo ver reações do seu corpo que não poderiam ser medidas por vocês. Mas não te acho covarde, de qualquer forma. Você nem sabe o que sou, e ainda está aqui, conversando comigo. Poderia não ser uma ação inteligente, no entanto. Mas, para nossa sorte, acho que não é o caso. Eu poderia me levantar, poderia aparecer para você? Não vou te fazer mal, eu juro. É que estou há muito tempo nessa posição.
"Ele jura... interessante", ela pensou enquanto, de costas, subia mais um degrau.

- T... Tudo bem.
A luz fraca e alaranjada que entrava dos basculantes mostrava flocos de poeira flutuantes. Eles se agitaram quando o ser avançou. A menina arquejou. Com certeza ela fugiria, se pudesse, mas ficou paralisada, sem reação, dominada pelo medo. Entre as frestas de luz crepuscular ela viu uma estranha mistura do que seria, em sua imaginação, algo entre um disco-voador, um trator e um... gorila, por assim dizer. Uma forma gigante, com mais de meia tonelada, braços fortes como o de um símio, metalizados, cheios de fios e tubos. Ele sabia que ela estava terrificada, mas não pode evitar exercitar as juntas.

- Eu tinha medo de acordar e você não estar aqui, como previsto. Você deve estar se perguntando como pude prever isto. Bem, não previ na verdade. Apenas lemos no seu diário. Haha! Me desculpe! Estou me adiantando um pouco. Ainda estou confuso com tantos anos dormindo. E viagem no tempo não é lá uma ciência muito precisa...
Quando o estranho ser olhou novamente, ela havia partido. Ele suspirou, voltou para o canto e, mais uma vez, começou a dormir. No dia seguinte, no entanto, despertou com a garota sobre o seu corpo. Ele não se moveu, mas ela recuou com agilidade até a porta ao ver que os olhos amarelos estavam acesos novamente. Ela parou exatamente no mesmo lugar, no pé da escada, preparada para fugir. Embora não tivesse feições, o tom de voz da "assombração" sugeria um sorriso.

- Ok, Clementina, você me pegou. Eu sou mesmo uma assombração... Mas não uma assombração do passado, como nos seus filmes. Sou uma sombra do futuro... De um futuro que poderia ser maravilhoso se os humanos ainda estivessem lá. Eu tenho uma missão para você...
Ela permaneceu parada e em silêncio por uns instantes, depois sentou-se no primeiro degrau e sorriu.

- Eu tenho 12 anos, sabe? E gosto muito de ler e estudar. Mas as pessoas acham que não serei ninguém. Só uma mãe e dona de casa. O que eu mais gosto é de matemática e de observar o espaço com meu avô. Minha tia não pode ter filhos, sabe? Ela ficou feliz quando vim com o meu pai morar com ela e meu avô, embora tenha sido por um motivo trágico. Eu gosto de um menino. O nome dele é Anderson. O pai dele é fazendeiro, como meu avô. Se bem que meu avô não é um tipo comum de fazendeiro. É mais como se fosse um hobby. Ele gosta mesmo é de olhar para o céu... para os planetas, sabe? Eu beijei Anderson na boca, mas agora não quero mais vê-lo. Ele estava do lado dos outros garotos que disseram que só servimos para cuidar da casa e das crianças...
Ela falou durante quase duas horas. Sem parar sequer para tomar fôlego. Com um misto de tédio e ternura, a criatura ouviu a história silenciosamente. Depois que ela terminou de falar, ele finalmente se apresentou.

-Coincidentemente, meu nome é Anderson.
- Muito prazer. Eu sou a Clementina.
- Eu sei quem é você.
- Sim, mas ainda não me apresentei a você.
- Você tem um ponto.
- Você é algum tipo de bicho?
- Acho que não.
- Você é vivo?
- De certa forma, sim, mas não como você.
- Como, então?
- Bem eu não sou uma forma de vida orgânica, para resumir, como você, os animais, insetos e plantas. Mas eu sou vivo. Sou uma inteligência artificial. Houve um momento, na história da humanidade, chamado de singularidade. Em linhas gerais, para te explicar, foi o momento em que os computadores passaram a pensar por si só se criarem e recriarem, cada vez melhores. Muita gente teve medo de uma guerra, e fomos até atacados algumas vezes. Uma coisa que aconteceu muitas vezes antes, entre os próprios humanos, de alguém ser atacado por medo. Acontece nesse exato momento, na África do Sul, por exemplo...
- Vocês foram atacados e não revidaram?
- Não foi necessário. Ocorreu uma grande catástrofe e pudemos ajudar os humanos. Em conjunto, conseguimos impedir o fim da humanidade por um tempo. Mas após alguns séculos, as consequências da exploração irresponsável da Terra e as consequências dessa catástrofe tornaram o planeta um lugar inóspito para as outras formas de vida.
- E de onde você vem?
- Do ano 2700.
- Hã... Nossa...
- Parece distante, mas não é. Acredite.
- Ahã...
- Por isso viemos para o passado. Para tentar evitar ao menos uma parte as perdas.
- E essa seria a minha missão?
- Pode se dizer que sim. Você será a portadora da Luz. Já ouviu essa história?
- Não.
- Bem... Não vou me alongar contando coisas desnecessárias. Basicamente, sua missão será portar um conhecimento importante para a humanidade para que ele sobreviva ao tempo.
- E como eu farei isso? Eu não gosto de ser chamada de criança. Você está me dando uma responsabilidade grande, e isso é bem empolgante. E eu posso vir aqui com uma frequência, se as pessoas não perceberem. Mas a maioria dos adultos me vê como uma criança inútil e não posso ir muito longe e nem por muito tempo. Além disso, por mais que você me diga que o ano de 2700 não é distante, bem para mim é. Tenho certeza de que não viverei até lá.
- Vai ser simples. Prometo. Preciso voltar para o meu tempo e isso ocorrerá daqui há alguns dias.
- Certo. Qual a minha missão?
- Que dia você pode voltar?
- Depois de amanhã, acho...
- Dará tempo. Sua primeira missão será trazer seu diário. Vou te instruir e ditar alguns cálculos que você não vai entender, mas talvez entenda no futuro. Ou outra pessoa consiga entendê-lo.
- Como você sabe que entenderei?
- Bem, eu não posso dizer. Se eu falar demais, posso mudar sua forma de viver a vida. Então toda a missão irá por água abaixo. Precisarei que você acredite em mim. Mesmo sem provas.
- Minha tia chama isso de fé.
- Podemos chamar assim, se você preferir.
http://idcondenados.forumeiros.com/t20-casa-abandonada

A menina levou quatro dias para conseguir voltar. Eles passaram muito tempo juntos. O robô ditou o texto e os cálculos e depois eles conversaram sobre a importância de pensar no futuro, no bem da Terra e de todas as espécies. Sobre como o valor da vida não diferia entre um humano ou um broto de feijão e como nada disso existia no lugar de onde Anderson veio.

- Mesmo que nada disso acontecesse e os homens soubessem viver em harmonia com o Planeta, sem matá-lo, um dia a Terra também chegaria ao fim. Então, vocês vão precisar de explorar o espaço, o mais longe que a humanidade seria capaz de ir, em busca de novos lares, a começar pelo sistema solar. E os cálculos que eu te passei... Agora... Agora você não pode escrever isso que vou te falar. Me prometa.
- Eu juro.
- E me prometa que guardará muito bem o seu diário, pois precisaremos encontrá-lo no futuro.
- Eu já faço isso. É meu diário. Tem coisas que ninguém pode ler aqui.
- Acharia desonesto com você se eu não te contasse o que são esses cálculos. Eles unem o que hoje vocês chamam de relatividade, que será bem diferente no futuro, com a física quântica, que também terá, inclusive, outro nome. Nós conseguimos isso sem os humanos e foi o que me permitiu voltar aqui. E isso permitirá o desenvolvimento de tecnologias para reverter parcialmente, adiar e, finalmente, preparar a humanidade para deixar a Terra, lado a lado com a minha espécie. Engraçado como uns poucos números e sinais podem mudar a história do Planeta. Se os homens soubessem isso antes, se soubessem de verdade...

Após o breve devaneio, a criatura silenciou. Olhou para Clementina e ela teve certeza de ver ternura e esperança naqueles olhos amarelos. Houve um clarão e ela desmaiou. Acordou no dia seguinte. Anderson a encontrara. Ela pegou o caderno e nunca mais voltou à casa assombrada. Também não contou para ninguém o que aconteceu. Mas nunca se esqueceu da voz doce e permissiva que lhe entregou a chave para o amanhã. Em 2010, aos 72 anos, Clementina Sacramento concluiu o último de seus trabalhos de física, mas morreu antes de entregá-los à universidade em que lecionava. Cientistas demoraram a ter acesso às descobertas da incrível mulher. As teorias que ela formulou, muito à frente do próprio tempo, ajudaram a humanidade alguns séculos depois e ela se tornou uma cientista renomada, no mesmo nível que um Albert Einstein ou um Isaac Newton, laureada em todas os centros de pensar do mundo. O que os historiadores não entenderam foi como, aos 12 anos, ela descreveu em seu diário de menina a mais importante das equações da física. Não fazia sentido.

Antes de morrer, Com os cabelos grisalhos e o rosto marcado por rugas, inconsciente, entubada, irreconhecível, presa a uma cama de hospital, em um momento de inconsciente lucidez, ela sonhou que Anderson, o fantasma, estava lá com ela. "Se vocês conseguiram chegar tão longe, porque voltar no tempo e salvar os humanos? Somos criaturas, as vezes, tão mesquinhas e decepcionantes. Esse é, na verdade, o único mistério que me instiga", ela questionou. "Nós fizemos isso porque podíamos", ele respondeu. Então, tudo se apagou para todo o sempre.


* Conto inspirado no livro Ismael, de Daniel Quinn.

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